Quarto Com Baú
  

Minha voz, minha voz mesmo, ainda não encontrei. Mas escutei ao longe seu eco e é com ele que volto a escrever. Sou o eco do eco. Bom, 2005 terminou, mas o que vivi durante os seus 365 dias foi suficiente para que ele se tornasse um marco em minha vida. Agora, para nós que estamos vivos é ano novo, de novo. No meu processo de fazer de 2006 um ano realmente novo decidi parar de escrever no blog. Venho me despedir. Na verdade acho que estou dando um tempo para o computador em minha vida. Estou morando numa casinha branca com varanda, num lugar de mato verde que me convida para estar cada vez mais perto da natureza, com os pés descalços e os cabelos molhados. Por aqui já tomei queda de bicicleta, já peguei numa jibóia (é macia e quentinha como um braço de bebê!), já pedi ajuda para devolver à mata uma aranha caranguejeira que insistia em dividir o banheiro comigo – justamente na hora do meu banho!, já fui auxiliar de aprendizagem de vôo de filhote de sabiá que caiu do ninho feito no telhado da garagem, e agora quero plantar rosas, lírios, manjericão, alecrim e outras delícias no quintal. Por isso, meus queridos cúmplices de jornada nesse quarto com baú, venho me despedir. A minha memória leva lembranças muito quentinhas da presença de vocês e da nossa co-respodência.    

 

Um beijo com muita gratidão para cada um.

 

P.S. Depois do comentário de Luma resolvi esclarecer que não pretendo deletar o blog, só pretendo deixar de postar.



 Escrito por Fátima Guimarães às 13h07
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Na multidão das palavras me perdi da minha voz...

Quando encontrá-la, volto a postar.



 Escrito por Fátima Guimarães às 00h09
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Fui ao blog do Ricardo e lá estava um post sobre 'ele e o despertador'. Isso me fez ir buscar um trechinho de um escrito antigo, num projeto de livro que parei na página 17. Lá vai...

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Segunda feira depois da páscoa.

 

Carmen se sentia azeda de tanto chocolate que comera no dia anterior. A mãe dela, como toda mãe, aparentemente, comum, fez um enorme bolo de chocolate para a sobremesa do almoço de páscoa e junto com o bolo, colocou na mesa a chantagem:

- Vocês já comeram tanto ovo de páscoa que nem deixaram lugar para o bolo que eu fiz com tanto carinho. Não faço mais...

Pronto. Todo mundo tratou de arranjar um lugarzinho para caber o bolo. Enquanto se submetia ao ‘pedido’, Carmen pensou que deveria ter aulas de culinária e aulas de chantagem com a mãe, pois ela era especialista nesses assuntos. Depois de pensar tal coisa, teve até um pouco de remorso, o que lhe confirmou que a chantagem era realmente das melhores!

Levantou-se da mesa sentindo-se uma jibóia que devorou uns cinco coelhos, mas quando percebeu novamente o gosto do chocolate na boca, sentiu-se o lobo mau que, depois de almoçar a Chapeuzinho e a Vovozinha, comeu de sobremesa um bom bolo de chocolate feito pela Mamãezinha. Será que essa história aconteceu num domingo de páscoa?

E lá vai ela com seus pensares.

 

Carmen azeda e com remorso de ter comido tanto chocolate, levantou uns cinco minutos depois do despertador ter tocado feito galinha gritando (entenda cacarejando) para anunciar que pôs ovo. Mas isso acontece todos os dias, não o azedume ou o remorso, só os cinco minutos mais. Ela escolheu esse despertador, aparentemente comum, depois que a moça da loja lhe mostrou como ele funcionava.

- Primeiro ele toca normal. Se a senhora não desliga, ele toca mais alto. E se ainda não desligar, ele...Espere, eu não vou desligá-lo só para a senhora ver o que acontece...

Quando a moça disse ‘desligá-lo’ Carmen já começou a pensar nos galos que também são despertadores, mas foi arrancada de seus pensamentos. Sabe o que aconteceu? O despertador parecia uma coisa furiosa apitando alto e rapidamente, PIPIPI-PIPIPI-PIPIPI!, como se anunciasse algum incêndio, ou fim de mundo, mobilizando em quem ouvia um ‘salve-se quem puder, enquanto há tempo’.  Carmen teve certeza de que era exatamente aquele que procurava. Com ele não precisaria ir de quarto em quarto acordar cada um dos filhos. O despertador, sem sair do lugar, despertaria todos da casa. E talvez mais alguns dos prédios vizinhos. O despertador significava uma economia de tempo na correria da manhã e ela teria mais cinco minutos para deixar que o corpo se refizesse da descarga de adrenalina que aquele tipo de acordar lhe trazia.

 

Naquela segunda feira ela escreveu na cadernetinha que estava no criado mudo:

Quem criou esse despertador, das duas, uma: ou fez para si próprio porque tem um sono muuuuito pesado e já perdeu algum compromisso muuuuuito importante; ou fez para acordar alguém que ele tem vontade de fazer levantar da cama aos catiripapos, sopapos e  sacolejões. Um dia vou dar uns catiripapos, sopapos e sacolejões nesse relógio e  jogá-lo no lixo por mais ingrato que esse gesto possa parecer.



 Escrito por Fátima Guimarães às 00h26
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Amores de gatos...

(Kiko beijando Madalena no meu quarto, na minha cama forrada com lençol "Amar é... " - Lila foi a fotógrafa)



 Escrito por Fátima Guimarães às 22h35
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Levanto-me achando que o dia de hoje chegou muito cedo. Você e os meninos, já de saída. O café, tomo com calma. O sabonete de alecrim me espera para o banho onde lavo demoradamente os cabelos e, depois, sobre a pele ainda molhada borrifo água de rosas. Tenho vontade de sair assim, vestida apenas pela pele úmida, mas... não vai dar... Vou para o quarto e começo a me aprontar na frente do espelho, sem pressa. No espelho ainda estão as imagens da noite de ontem – nossos corpos no ritual de acasalamento e comunhão – de onde a roupa vai, peça por peça, me afastando e me trazendo para o hoje. Na porta do quarto, do lado de fora, os gatos e as tarefas do dia montam guarda, me esperando. Que esperem... ainda não cheguei de volta das terras distantes da noite de ontem... que esperem, ainda é muito cedo...



 Escrito por Fátima Guimarães às 15h25
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   Setembro. Meninos de todas as idades soltando pipa pela cidade. A primavera faz os últimos ensaios, antes das estréia, com as flores. Madalena está no cio mijando a casa toda. Meu computador está doente, assim como eu -  pegamos vírus dos brabos, o meu é gripe e o dele não sei. Digito, 'catando milho', no computador de Tito. Kiko lambe meus dedos dos pés enquanto escrevo. Fico pensando em como nós humanos transformamos a voz em palavra e as palavras em nosso porta-voz... Pensamentos e palavras que florescem em setembro...

 Escrito por Fátima Guimarães às 22h05
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Matéria Prima ou alquimia feminina...

 

Cada mulher traz em si

A devoção da vaca

A força da égua

A generosidade da cadela

A urgência da gata

A disponibilidade da galinha

A pluralidade da serpente

E o mistério da rosa...



 Escrito por Fátima Guimarães às 22h29
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Quando o queremos devagar, passa correndo. Mas, se esperamos que passe rápido, passa lento.

Sei não... acho que o tempo é pirracento!



 Escrito por Fátima Guimarães às 23h49
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Dia dos pais passou e me esqueci de ligar para o meu. Era noite quando, indo sozinha ao teatro, pelo rádio do carro Fábio Júnior e seu “Pai herói” me lembraram que aquela era a noite do dia dos pais. Corri para a matemática para me aliviar um pouco da culpa de ter esquecido: ainda não é meia noite, portanto ainda não acabou o dia dos pais. Conta feita e tirada a prova dos noves fora, parei no primeiro orelhão – ainda me recuso a aderir ao celular – e fiz a ligação interurbana. Lá veio ele todo contente e cheio de galanteios. Nos despedimos e ao invés de ‘tchau’, me disse: Deus te abençoe, filha. Desliguei com a sensação boa de ter um pai que abençoa a gente. Fiquei feliz e emocionada. Entrei no carro e segui meu caminho para o teatro. Desliguei o rádio e fui fazendo um flashback da presença de meu pai em minha vida. Refleti o que é a presença paterna na vida de uma pessoa, quantas coisas da nossa forma de ser, ver e caminhar pela vida estão plantadas nessa relação. Tenho uma imensa plantação de lembranças...

 

A primeira que veio foi meu pai me ensinando a declamar poemas. Ele é muito bom nisso e tanto eu, como minha irmã acabamos nos interessando por essa arte e ele ensaiava conosco. Lembro-me de uma poesia de Zé da Luz – “A terra caiu no chão” -  que tinha uns versos assim: ‘(...) e num saquinho de brim, essa relíquia encerrei. Com carinho e com cuidado, numa ripa do telhado, o saquinho eu pendurei (...)’. Relíquia, essa palavra não fazia o menor sentido para minha irmã ou para mim, portanto logo tratamos de torná-la menos estranha e a rebatizamos: ‘relíquida’! Meu pai escutava em silêncio o nosso coro, aí chegou a vez da ‘relíquia’ que tinha virado ‘relíquida’, foi a gente acabar de dizer e ele dar um pulo como se tivesse recebido uma descarga elétrica, Relíquida?!! Relíquida?!! Onde vocês viram isso?!!! Vocês estão inventando palavra? É RE-LÍ-QUIA!!!  O ensaio virou uma aula de português e ele fez poesia pra nos explicar que relíquia é uma coisa muito, muito preciosa. Passado o susto e a explicação, ele repetiu pra si próprio – mas a gente ouviu – ‘relíquida, relíquida...’ e nos olhou já com um sorriso gargalhando dentro dos olhos. O ensaio que virou aula de português, acabou virando uma sessão de riso gostoso e compartilhado. Ele vivia dizendo que minha irmã e eu iríamos lançar um ‘dicionovário’: dicionário de novas palavras.

 

Depois vieram à lembrança algumas frases que escutei dele em ocasiões diversas. Uma delas foi numa reunião do clube que ele e minha mãe faziam parte. O local era uma sala grande, cheia de cadeiras e uns lugares na frente separados com fitas. Para minha irmã e eu aqueles pareciam os lugares mais interessantes, e perguntamos a ele se podíamos nos sentar ali. A resposta foi: “Não. Nos primeiros lugares é melhor vocês serem convidadas a se sentar do que convidadas a se retirar”. Outra frase que ficou foi quando comecei a dirigir e ainda não sabia direito de quem era a preferencial num cruzamento de ruas, e ele, no banco do carona me ensinou: “Na dúvida, deixe o outro passar. Aliás, no trânsito nuca queira ter razão, porque quando já se está discutindo ‘quem está certo’ algo muito grave pode ter acontecido”. Vieram outras tantas frases, mas vou colocar só mais uma. Certa vez, estávamos numa loja, numa cidade longe de casa e meu pai comprou uns óculos escuros pra minha mãe. Era naquele tempo em que se entregava o cartão ao vendedor e ele telefonava para um serviço de proteção ao crédito, só depois entrava em cena a maquininha manual. Sei que meu pai conversou tanto e contou tanto ‘causo’ que a vendedora passou o cartão sem fazer a consulta. Ao ver aquilo ele disse à moça: “Você não fez a consulta confiando nos meus cabelos brancos, não confie na brancura dos cabelos e faça sua consulta, pois os canalhas também envelhecem.” Por muito tempo pensei em escrever um livro ou fazer um filme com esse nome: “Os Canalhas Também Envelhecem...”

 

Das muita cenas tragicômicas que já vivi com ele, escolho uma para contar aqui. Tito nasceu em abril de 1989, em junho tinha uma festa de São João em Itapetinga. Para lá fomos Luiz, Tito – bebezinho – e eu. No dia da festa, eu louca por forró, amamentei bastante, deixei Tito com meu pai – ele disse todo animado, ‘Pode ir que eu fico com meu neto!’ (era sua estréia no papel de avô) – e fui para dançar só umas três músicas. Na segunda música meu coração de mãe recém inaugurado começou a ficar aflito. Lú, temos que voltar, agora!  Em casa, da porta da rua, no andar de baixo, já escutávamos o rangido da rede balançando rápido, o choro forte de Tito e a voz de meu pai cantando bem alto: Boêmiiiaaa, aqui me teeeens de regresso...”

 

 

Ah, meu pai me ensinou a dançar, a gostar de pescar a poesia nas letras das músicas e nas cenas do cotidiano. A trabalhar por prazer e com prazer e que a vida não é só trabalho. Me ensinou que com bom humor a vida é mais gostosa. E que suco de laranja batido com gelo e açúcar e tomado num canudo, junto com o pai num fim de tarde da infância, pode deixar um gostinho bom na alma pra sempre...

 

P.S. Se alguém quiser saber mais sobre meu pai é só assistir a um filme chamado ‘Peixe Grande’...



 Escrito por Fátima Guimarães às 01h04
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   Ele lê, fala e escreve a linguagem da minha pele...

 Escrito por Fátima Guimarães às 23h45
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Lua nova, misteriosa e despudorada lua

Despe-se do seu vestido de sol

E passeia pelo céu completamente nua...

 



 Escrito por Fátima Guimarães às 23h04
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Aniversário de Lila, fiz uma carta e 'escondi' aqui pra ela achar depois.

 

Lila,

 

Quando a gente está grávida, por mais que se imagine, nunca sabemos de fato como será esta pessoa que está se aprontando pra chegar em nossas vidas. Quando eu lhe carregava dentro de mim nem sabia se era menino ou menina. Por mais que seu pai dissesse que era menina, eu só acreditei quando vi a ultrassonografia. Eu não ‘acreditava’, mas o único nome que tinha sido escolhido era Lila.

 

Chegou o dia do seu nascimento e você chegou linda, gorducha, tranqüila, num parto dentro d’água com seu pai todo feliz pertinho de nós duas. Você deu uma voltinha na piscina, com o cordão umbilical ainda nos ligando. Eu me senti a nave-mãe e você era o astronauta chegando num planeta estranho. Ao mesmo tempo em que eu era a nave mãe, também era a habitante do planeta estranho e sua anfitriã nesse mundo, estendi meus braços e lhe ‘pesquei’ da água. Ah, eu lhe aninhei em meu colo e me senti completamente abençoada quando nossos olhares se cruzaram. Seu pai colocou a mão dele nas suas costinhas e o tempo parou para existir apenas aquele momento e nossos três corações pulsando juntos, feito atabaques num rito ancestral de intensa celebração da vida. Isso foi num 29 de julho, no ano terreno de 1991, numa segunda feira às 10:13h da manhã. Logo depois Tito chegou curioso pra ‘ver a irmãzinha’. Às 13h estávamos todos de volta em casa.

 

O seu primeiro ano foi caminhando e você crescendo. Dois dias antes do seu ‘aniversário’ de nove meses, estávamos todos na sala escutando música. Eu filmava seu pai colocando discos, Tito ‘ajudando’ seu pai e dançando, e você andando se segurando pelas paredes. O disco que girava na vitrola era um antigo do “Quarteto em Cy e MPB-4”. Na hora em que eles cantavam uma música linda que se chama “A Estrada e Violeiro”, justo nos versos em que ‘a Estrada’ dizia: “Segue em frente violeiro que eu lhe dou a garantia de que alguém passou primeiro a procura da alegria...” você se soltou da parede e atravessou a sala com os passos mais firmes que conseguiam suas perninhas cambaleantes de aprendiz de próprios passos e caminhos.

 

E foi caminhando também o tempo e você se tornando uma mocinha, às vezes brisa, outras vendaval. Sua avó me contou que da outra vez que esteve aqui, você arrumou a cama para ela se deitar, cobriu-a com o lençol, deu um beijo de boa noite e já na porta do quarto, antes de apagar a luz, perguntou: “Você quer um pouquinho de água, Vó? Se quiser, eu trago”.

 

Gosto das nossas conversas e de você por perto enquanto me arrumo. Outro dia me lembrei de uma vez em que eu me aprontava pra sair com seu pai, me vestindo de ‘namorada’, e você assistia, deitada na minha cama, eu colocar umas presilhas no cabelo. Na maior calma, falou: “Mãe, você usa umas coisas que ninguém usa...” e eu respondi: “sou assim mesmo, não-convencional”; e você, sem perder a calma, ‘explicou’: “não é bem isso, você usa umas coisas que eram usadas no seu tempo...” Caímos na gargalhada e eu disse: “criatura! Está me chamando de cafona!” Também me lembro da gente olhando umas fotos antigas que seu pai fez de mim numa praia deserta, o meu biquíni era minúsculo e eu me contemplava nostalgicamente: “Ah, como eu tinha um belo corpo...” Você me corrigiu enfaticamente: “Você ainda tem um belo corpo!” Se eu estivesse pensando em plástica ou silicone teria desistido na hora!

 

Hoje você faz 14 anos! E terá duas festas diferentes para cada uma das suas ‘tribos’: as meninas da escola e “o povo” do acampamento. Nenhuma uma comemoração banal, em cada uma você cuidou de pesquisar até orçamento pra definir o que queria e como queria.

 

Realmente quando a gente está grávida, por mais que se imagine, nunca sabemos de fato quem ou como será esta pessoa que está se aprontando pra chegar em nossas vidas. Meu Deus, olho pra essa adolescente linda e me comovo, é muito bom que a gente tenha se encontrado como mãe e filha!

 

Lila, que você aprenda com a sabedoria das anciãs da Lua Minguante, com os mistérios da Lua Nova, com a esperança da Lua Crescente e com a plenitude da Lua Cheia e que o Sol lhe ilumine os caminhos e o coração, agora e sempre...



 Escrito por Fátima Guimarães às 01h14
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Hoje é aniversário de meu pai e resolvi trazer um 'causo' da página dele (Causos do Getrão - linkada aí ao lado). Gosto do seu jeito espontâneo e lúdico de encarar a vida, gosto que na nossa passagem por esta terra a gente tenha se encontrado como pai e filha. Passo o microfone, digo o teclado, para ele:

Vocês já imaginaram o que é uma pessoa morar num hotel durante quinze anos? Era viver um mundo fascinante, encontrar gente de todos os tipos e das mais variadas profissões. Um enorme burburinho e este humilde contador de "causos" fazendo parte desta Babel cotidiana.

O nosso "causo" desta semana, embora tenha acontecido na década de 50, parece que foi ontem. Às vezes que me detenho e olho, vendo a imponência do prédio (Loja Insinuante) que foi construído no lugar do antigo Hotel Astória aqui em Itapetinga, bate-me uma recordação saudosa daqueles tempos de outrora.

Lembro-me também da herança que recebi e que por mais de quarenta anos vem me acompanhando. Não se trata de dinheiro, mas uma prisão-de-ventre indestrutível provocada pela alimentação farta e gordurosa, a fritura e toda a farinha que foi consumida no famoso hotel.

Para amenizar os momentos precisos, eu recorria a privada, como era chamada naquele tempo. Os sanitários do Astória eram geminados e a divisão feita por apenas uma folha de Eucatex caiada fingindo parede, praticamente nos tornava íntimos do vizinho: qualquer som que saisse, ouvia-se perfeitamente dos dois lados.

Num desses sanitários, tentando me aliviar, todas as vezes eu cantava a musiquinha costumeira: "Ai! Ui! Ai! Ui!" Num determinado dia, encontrei acompanhamento do vizinho do box ao lado que também gemia com seus ais e uis. Entre um gemido e outro, eu me deparei com um verso inserido na porta, bem apropriado para o momento:

Nesse lugar solitário
Toda vaidade se apaga
Todo mufino faz força
E todo valente se caga!

Ainda estava decorando a obra-prima deste poeta de privada anônimo quando ouvi no box ao lado aquele som característico de encontro com a água: Plum! Perguntei então para o irmão de sofrimento, "Aliviou aí companheiro?", ao que ele me respondeu: "Que nada rapaz. Foi o meu relógio que caiu do bolso."



 Escrito por Fátima Guimarães às 21h50
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   Seremos sempre muito estranhos a nossos próprios olhos e também muito íntimos desse ser estranho...

 Escrito por Fátima Guimarães às 07h18
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   Gente. estou me preparando pra voltar mais animada, ando muuuito emimesmada...

 Escrito por Fátima Guimarães às 20h43
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