Quarto Com Baú
  

Dia dos pais passou e me esqueci de ligar para o meu. Era noite quando, indo sozinha ao teatro, pelo rádio do carro Fábio Júnior e seu “Pai herói” me lembraram que aquela era a noite do dia dos pais. Corri para a matemática para me aliviar um pouco da culpa de ter esquecido: ainda não é meia noite, portanto ainda não acabou o dia dos pais. Conta feita e tirada a prova dos noves fora, parei no primeiro orelhão – ainda me recuso a aderir ao celular – e fiz a ligação interurbana. Lá veio ele todo contente e cheio de galanteios. Nos despedimos e ao invés de ‘tchau’, me disse: Deus te abençoe, filha. Desliguei com a sensação boa de ter um pai que abençoa a gente. Fiquei feliz e emocionada. Entrei no carro e segui meu caminho para o teatro. Desliguei o rádio e fui fazendo um flashback da presença de meu pai em minha vida. Refleti o que é a presença paterna na vida de uma pessoa, quantas coisas da nossa forma de ser, ver e caminhar pela vida estão plantadas nessa relação. Tenho uma imensa plantação de lembranças...

 

A primeira que veio foi meu pai me ensinando a declamar poemas. Ele é muito bom nisso e tanto eu, como minha irmã acabamos nos interessando por essa arte e ele ensaiava conosco. Lembro-me de uma poesia de Zé da Luz – “A terra caiu no chão” -  que tinha uns versos assim: ‘(...) e num saquinho de brim, essa relíquia encerrei. Com carinho e com cuidado, numa ripa do telhado, o saquinho eu pendurei (...)’. Relíquia, essa palavra não fazia o menor sentido para minha irmã ou para mim, portanto logo tratamos de torná-la menos estranha e a rebatizamos: ‘relíquida’! Meu pai escutava em silêncio o nosso coro, aí chegou a vez da ‘relíquia’ que tinha virado ‘relíquida’, foi a gente acabar de dizer e ele dar um pulo como se tivesse recebido uma descarga elétrica, Relíquida?!! Relíquida?!! Onde vocês viram isso?!!! Vocês estão inventando palavra? É RE-LÍ-QUIA!!!  O ensaio virou uma aula de português e ele fez poesia pra nos explicar que relíquia é uma coisa muito, muito preciosa. Passado o susto e a explicação, ele repetiu pra si próprio – mas a gente ouviu – ‘relíquida, relíquida...’ e nos olhou já com um sorriso gargalhando dentro dos olhos. O ensaio que virou aula de português, acabou virando uma sessão de riso gostoso e compartilhado. Ele vivia dizendo que minha irmã e eu iríamos lançar um ‘dicionovário’: dicionário de novas palavras.

 

Depois vieram à lembrança algumas frases que escutei dele em ocasiões diversas. Uma delas foi numa reunião do clube que ele e minha mãe faziam parte. O local era uma sala grande, cheia de cadeiras e uns lugares na frente separados com fitas. Para minha irmã e eu aqueles pareciam os lugares mais interessantes, e perguntamos a ele se podíamos nos sentar ali. A resposta foi: “Não. Nos primeiros lugares é melhor vocês serem convidadas a se sentar do que convidadas a se retirar”. Outra frase que ficou foi quando comecei a dirigir e ainda não sabia direito de quem era a preferencial num cruzamento de ruas, e ele, no banco do carona me ensinou: “Na dúvida, deixe o outro passar. Aliás, no trânsito nuca queira ter razão, porque quando já se está discutindo ‘quem está certo’ algo muito grave pode ter acontecido”. Vieram outras tantas frases, mas vou colocar só mais uma. Certa vez, estávamos numa loja, numa cidade longe de casa e meu pai comprou uns óculos escuros pra minha mãe. Era naquele tempo em que se entregava o cartão ao vendedor e ele telefonava para um serviço de proteção ao crédito, só depois entrava em cena a maquininha manual. Sei que meu pai conversou tanto e contou tanto ‘causo’ que a vendedora passou o cartão sem fazer a consulta. Ao ver aquilo ele disse à moça: “Você não fez a consulta confiando nos meus cabelos brancos, não confie na brancura dos cabelos e faça sua consulta, pois os canalhas também envelhecem.” Por muito tempo pensei em escrever um livro ou fazer um filme com esse nome: “Os Canalhas Também Envelhecem...”

 

Das muita cenas tragicômicas que já vivi com ele, escolho uma para contar aqui. Tito nasceu em abril de 1989, em junho tinha uma festa de São João em Itapetinga. Para lá fomos Luiz, Tito – bebezinho – e eu. No dia da festa, eu louca por forró, amamentei bastante, deixei Tito com meu pai – ele disse todo animado, ‘Pode ir que eu fico com meu neto!’ (era sua estréia no papel de avô) – e fui para dançar só umas três músicas. Na segunda música meu coração de mãe recém inaugurado começou a ficar aflito. Lú, temos que voltar, agora!  Em casa, da porta da rua, no andar de baixo, já escutávamos o rangido da rede balançando rápido, o choro forte de Tito e a voz de meu pai cantando bem alto: Boêmiiiaaa, aqui me teeeens de regresso...”

 

 

Ah, meu pai me ensinou a dançar, a gostar de pescar a poesia nas letras das músicas e nas cenas do cotidiano. A trabalhar por prazer e com prazer e que a vida não é só trabalho. Me ensinou que com bom humor a vida é mais gostosa. E que suco de laranja batido com gelo e açúcar e tomado num canudo, junto com o pai num fim de tarde da infância, pode deixar um gostinho bom na alma pra sempre...

 

P.S. Se alguém quiser saber mais sobre meu pai é só assistir a um filme chamado ‘Peixe Grande’...



 Escrito por Fátima Guimarães às 00h04
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