Quarto Com Baú
  

Aniversário de Lila, fiz uma carta e 'escondi' aqui pra ela achar depois.

 

Lila,

 

Quando a gente está grávida, por mais que se imagine, nunca sabemos de fato como será esta pessoa que está se aprontando pra chegar em nossas vidas. Quando eu lhe carregava dentro de mim nem sabia se era menino ou menina. Por mais que seu pai dissesse que era menina, eu só acreditei quando vi a ultrassonografia. Eu não ‘acreditava’, mas o único nome que tinha sido escolhido era Lila.

 

Chegou o dia do seu nascimento e você chegou linda, gorducha, tranqüila, num parto dentro d’água com seu pai todo feliz pertinho de nós duas. Você deu uma voltinha na piscina, com o cordão umbilical ainda nos ligando. Eu me senti a nave-mãe e você era o astronauta chegando num planeta estranho. Ao mesmo tempo em que eu era a nave mãe, também era a habitante do planeta estranho e sua anfitriã nesse mundo, estendi meus braços e lhe ‘pesquei’ da água. Ah, eu lhe aninhei em meu colo e me senti completamente abençoada quando nossos olhares se cruzaram. Seu pai colocou a mão dele nas suas costinhas e o tempo parou para existir apenas aquele momento e nossos três corações pulsando juntos, feito atabaques num rito ancestral de intensa celebração da vida. Isso foi num 29 de julho, no ano terreno de 1991, numa segunda feira às 10:13h da manhã. Logo depois Tito chegou curioso pra ‘ver a irmãzinha’. Às 13h estávamos todos de volta em casa.

 

O seu primeiro ano foi caminhando e você crescendo. Dois dias antes do seu ‘aniversário’ de nove meses, estávamos todos na sala escutando música. Eu filmava seu pai colocando discos, Tito ‘ajudando’ seu pai e dançando, e você andando se segurando pelas paredes. O disco que girava na vitrola era um antigo do “Quarteto em Cy e MPB-4”. Na hora em que eles cantavam uma música linda que se chama “A Estrada e Violeiro”, justo nos versos em que ‘a Estrada’ dizia: “Segue em frente violeiro que eu lhe dou a garantia de que alguém passou primeiro a procura da alegria...” você se soltou da parede e atravessou a sala com os passos mais firmes que conseguiam suas perninhas cambaleantes de aprendiz de próprios passos e caminhos.

 

E foi caminhando também o tempo e você se tornando uma mocinha, às vezes brisa, outras vendaval. Sua avó me contou que da outra vez que esteve aqui, você arrumou a cama para ela se deitar, cobriu-a com o lençol, deu um beijo de boa noite e já na porta do quarto, antes de apagar a luz, perguntou: “Você quer um pouquinho de água, Vó? Se quiser, eu trago”.

 

Gosto das nossas conversas e de você por perto enquanto me arrumo. Outro dia me lembrei de uma vez em que eu me aprontava pra sair com seu pai, me vestindo de ‘namorada’, e você assistia, deitada na minha cama, eu colocar umas presilhas no cabelo. Na maior calma, falou: “Mãe, você usa umas coisas que ninguém usa...” e eu respondi: “sou assim mesmo, não-convencional”; e você, sem perder a calma, ‘explicou’: “não é bem isso, você usa umas coisas que eram usadas no seu tempo...” Caímos na gargalhada e eu disse: “criatura! Está me chamando de cafona!” Também me lembro da gente olhando umas fotos antigas que seu pai fez de mim numa praia deserta, o meu biquíni era minúsculo e eu me contemplava nostalgicamente: “Ah, como eu tinha um belo corpo...” Você me corrigiu enfaticamente: “Você ainda tem um belo corpo!” Se eu estivesse pensando em plástica ou silicone teria desistido na hora!

 

Hoje você faz 14 anos! E terá duas festas diferentes para cada uma das suas ‘tribos’: as meninas da escola e “o povo” do acampamento. Nenhuma uma comemoração banal, em cada uma você cuidou de pesquisar até orçamento pra definir o que queria e como queria.

 

Realmente quando a gente está grávida, por mais que se imagine, nunca sabemos de fato quem ou como será esta pessoa que está se aprontando pra chegar em nossas vidas. Meu Deus, olho pra essa adolescente linda e me comovo, é muito bom que a gente tenha se encontrado como mãe e filha!

 

Lila, que você aprenda com a sabedoria das anciãs da Lua Minguante, com os mistérios da Lua Nova, com a esperança da Lua Crescente e com a plenitude da Lua Cheia e que o Sol lhe ilumine os caminhos e o coração, agora e sempre...



 Escrito por Fátima Guimarães às 00h14
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