Quarto Com Baú
  

 Ela se encantou com um gesto de tirar dos olhos uns cabelos muito lisos que insistiam em impedir o olhar. Ele se encantou com um vestido cor-de-rosa que revelava uns bicos de seio também cor-de-rosa. Na sala, o gesto e o vestido sentavam-se em cadeiras vizinhas e era como se o universo não passasse de duas cadeiras vizinhas, um gesto e um vestido cor-de-rosa.



 Escrito por Fátima Guimarães às 07h33
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Minha avó materna se chamava Maria, Dona Maria, e teve uma vida sofrida e de muitas fugas. Quando era pequena, fugia da raiva de Tia Virgínia, sua irmã mais velha. Ela vivia dizendo: “Virgina não vale o chão que pisa”. Eu só entendi porque ela insistia nisso um dia em que pintei seu cabelo. Achei  uma cicatriz na cabeça.

- Ô Vozinha, essa cicatriz foi de quê?

- Ah. Isso num foi a ponta da faca que Virgina me jogou quando eu era pequena? Cêis num imagina quem é Virgina...

Quando ficou mocinha, fugia de Lampião. Contou que uma noite voltava pra casa pelo mato e de repente ouviu os latidos dos cachorros que acompanhavam o bando. Pensou e pensou pra onde ir, mas todo canto que pensou era muito longe. O canto mais perto era a árvore que estava na sua frente, subiu e só desceu de madrugada quando Lampião e seus capangas já iam longe. Toda vez que ela contava essa história, explicava por que tinha medo: “Lampião dizia que me levava mais ele se me encontrasse sozinha, longe de meu pai – que meu pai ele respeitava”.

Depois fugia da cama de meu avô. E dizia pra a gente: “Ser mulher é um sufrimento! A vida é muito ruim pra uma mulher. Ficar grávida é horríve! Eu num gostava...Depois que nasce os bichinho a gente pega a gostar. Mas eu prifiro os minino hôme. Sofre menos...”

Só que apesar de toda essa história de sofrimento e da sua teoria de que “mulher nasceu pra sofrer”, ela conservava uma gargalhada maravilhosa, sonora, GOS-TO-SA. Uma gargalhada que fazia cócegas, era impossível não rir também.

Das férias que passei na casa dela, tenho muitas lembranças. Uma bem nítida é a sua imagem acocorada lavando pratos numa bacia, cantando enquanto trabalhava. E tinha um detalhe, o barulhinho da sua aliança passando ou batendo nos pratos, pra mim fazia parte da cena. Sempre que me chamava pra ajudar, eu catava qualquer anel que pudesse fazer um barulho parecido ao da aliança, enfiava no dedo e me acocorava junto da bacia. E a gente ria, cantava e trabalhava.

Às vezes eu tinha medo dela. Quando matava galinha, tinha cer-te-za de que era uma bruxa! Ela entrava no puleiro e a gente ouvia o cocococó! apavorado e asa batendo pra todo lado. Um pouquinho depois, saía trazendo na mão uma galinha que se debatia e gritava. Vozinha se ajoelhava no chão de cimento e prendia a bicha entre os joelhos, segurava a cabeça pra baixo esticando o pescoço. Ali usava o polegar e as costas da faca pra puxar e arrancar umas penas. No lugar depenado, ela dava umas batidas com o lado da faca onde eu lia “Mundial”. Eu não resistia e perguntava:

- Pra quê bater assim, Vó ?

E ela respondia:

- Pra chamar o sangue pra’qui.

E isso, a galinha ainda tentando se soltar. Aí chegava a hora do corte, a lâmina deslizava no lugar depenado e batido e eu via o sangue grosso e vermelho se derramar na tigela que estava ali justamente pra isso. O bicho, com a dor do corte, se debatia ainda mais e com mais força. Mas, a tigela ia enchendo e a galinha ia sossegando. No fim, era uma cara chocante: os olhos fechados, o bico entreaberto e a cor amarelo-morta era a sua cor. Eu, hipnotizada. Quase em transe. Tinha a impressão de que estava da mesma cor - amarelo-morta. Ali, de cócoras, sabia que não ia conseguir me levantar sem cair. Parecia que meu sangue também tinha se derramado. Só que fora da tigela. E eu não sabia onde ele tinha ido parar. Mas, disfarçava. Se descobrissem que eu quase tinha morrido junto com a galinha, não iam me deixar assistir da próxima vez. E eu não podia perder aquele espetáculo!

Outras vezes eu achava que ela era fada. Na frente da casa, ela mantinha um jardim com umas florzinhas brancas e miúdas. As pessoas batiam palma no portão e perguntavam:

- Dona Maria, tem ‘surriso’?

Ela aparecia na porta da casa, enxugando as mãos no avental, e sorrindo respondia:

- Tem. Peraí...

E entrava pra apanhar a faca – a mesma “Mundial” de matar galinha. Voltava e cortava uns galhos das tais florzinhas, entregava à pessoa que recebia e lhe dava uma moeda. Eu, impressionada e curiosa, sem entender direito a cena, perguntava:

- Ô Vó, como é o nome dessa flor?

- ‘Surriso’ de Maria.

Sabe que por toda minha infância acreditei que a “Maria”, do ‘Sorriso de Maria’, era minha avó? Só descobri anos mais tarde que era outra Maria. Mas, a menina que insiste em recriar o mundo à sua maneira continua escutando a gargalhada da avó quando eu entro numa floricultura e me deparo com ramalhetes de ‘Surriso’...



 Escrito por Fátima Guimarães às 20h19
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