Quarto Com Baú
  

            

                                                                                       BIZARRICES...

 

             O dia do enterro do meu avô foi também o dia de atender pedidos, alguns estranhos, alguns antigos. Minha avó queria que uma irmã fosse enterrada junto com ela e meu avô. Era um pacto que os três tinham feito desde jovens. Justamente a irmã com quem ela mais brigava. A mais esquisita. A que comprava covas como investimento. Comprava e vendia. E sempre ganhava algum com isso. A irmã que guardava num baú a roupa que a vestiria no caixão. A irmã mais velha que criara minha avó e numa briga lhe atirara uma faca na cabeça. A que tinha sido enterrada numa sepultura emprestada, pois a morte a alcançara desprevenida exatamente no intervalo entre a venda de um túmulo e a compra de outro. Durante o funeral da irmã, minha avó foi até a administração do cemitério e comprou um jazigo para a família toda.

            Alguns anos depois morreu minha avó. Num ataque súbito a morte a obrigou a deixar pra outro a missão de amarrar na cintura de meu avô, depois de morto, o cordão de São Francisco que estava pendurado num cabide dentro do guarda roupa.  Inverteu-se a ordem e foi ele quem lhe calçou os sapatos com os saltos arrancados, conforme ela desejara. O funeral foi rápido e os cinco filhos, os dois cegos e os três videntes, se esqueceram de trazer pra junto dela a irmã mais velha. Na verdade, até se lembraram uns dias depois, mas o tempo foi correndo e a lista de prioridades da vida deles foi caminhando em outra direção.

            Dez anos se passaram e Dona Morte veio buscar meu avô. Chegou o dia de realizar o pedido que tinha esperado até então. Alguns procedimentos seriam necessários. A exumação da minha avó e a retirada da caixa de ossos da irmã dela da sepultura emprestada onde estava. Os cinco filhos disseram que queriam assistir à exumação, inclusive os dois cegos. Minha mãe tinha uma impressão de que, nesse tempo todo sem uso, a administração do cemitério havia removido sua mãe e colocado no lugar outra pessoa. Tal suspeita fazia eco nos irmãos. Enquanto falavam disso, vi passar, do lado de fora da sala onde estava sendo velado meu avô, um enorme cão labrador de pêlo preto lustroso. Como sou impressionada, pensei que estava tendo visões. Não demorou nada e ‘a visão’ entrou na sala conduzindo um cego. Era um amigo de meus tios que ao se certificar de ter encontrado o funeral certo, saiu pra buscar outros dois cegos que estavam esperando a confirmação do lado de fora. Todos, ao saber da exumação, pediram para assistir também.

            Chegou a hora. Avisei aos interessados e fui na frente. Minha mãe ia comigo. O rapaz do cemitério começou a retirar a cobertura de madeira e cimento. Eu nunca tinha visto nada parecido e assistia a cena entre a dor, a curiosidade e a perplexidade. Levantei a cabeça pra respirar um pouco antes da retirada da última tábua e dei com uma cena feliniana. Como o cemitério é tipo um grande jardim, as sepulturas têm apenas uma pequena placa que brota do chão indicando quem ali jaz, entre elas vinham cinco cegos, com as bengalas tateando o chão e caminhando num ritmo de dois passos e um tropeção, desviavam, davam mais dois passos e outro tropeção. Parecia uma dança, uma valsa, dois passos e um pulinho, dois passos e outro pulinho. Só quem não dançava era o cachorro preto que também vinha com eles. Tive que rir. Quando nos alcançaram, foi justamente na hora em que o funcionário do cemitério colocava os sapatos na caixa de ossos. Alguém narrou em voz alta para os recém chegados, o cabelo está todo intacto, a calçola também, do caixão só restam os metais, os ossos do pé estão dentro do sapato, o sapato está com os saltos arrancados.

            Quando a última pá de terra foi colocada sobre a sepultura, sabíamos que a dúvida não existia mais, os pedidos tinham sido atendidos e o pacto realizado. Os três estavam juntos, minha avó e sua irmã cada qual na sua caixa e meu avô no seu caixão com o cordão de São Francisco devidamente amarrado na cintura – eu mesma cuidei disso. Agora, depois de tudo o que vi e vivi, e sendo parte dessa família, deixo também o meu pedido: quero ser enterrada descalça e sem roupa de baixo...      



 Escrito por Fátima Guimarães às 21h02
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