Quarto Com Baú
  

‘Onde está a Margarida? Ela está lá no castelo. O castelo é muito alto.  E tirando uma pedra? Uma pedra não faz falta. E tirando duas pedras? Duas pedras não fazem falta. E tirando três pedras?’...

            Essa música parecia colada à sua boca nos últimos dias. Quando menos esperava se flagrava procurando por Margarida. Parou pra escutar a música com ‘outros olhos’ e viu que há tempos se sentia prisioneira de um castelo de tarefas e certezas. Certezas sobre o mundo, sobre a vida, sobre ela própria. A vida o trouxera, sabe-se lá por quais caminhos ou desígnios, para dentro da sua muralha de certezas. As palavras dele, o cheiro dele ativavam nela algo muito primitivo. A fechadura da jaula onde mantinha cativo o bicho fêmea estalou. Ardia-se em febres e sedes que pensava ter deixado para trás há muito tempo. Antigos rituais pagãos povoavam seus sonhos. Um deles atravessou o portal do sono e chegou claro à sua memória ao acordar, exigia corpo e realização. Justo nesse dia ele a convidou para sair. Aceitou e ousou uma confidência. À noite se veriam num lugar secreto. Sabia que precisava se preparar para aquele encontro. Sentiu-se mosca na teia do destino.

            A hora chegou e lá estavam os dois. Ela o trouxe até o círculo de pedra. Sentaram-se. Enquanto acendia o fogo, pediu que ele trouxesse água. A água aplacaria a sede e debelaria as febres. Era uma das suas certezas. Recebeu a taça com água, colocou-a no círculo, junto ao fogo. Tomou as mãos dele e ungiu-as com água de rosas. Fez o mesmo com as próprias mãos. Já podiam tocar nas pedras de incenso que jogariam juntos no fogo aceso. Estava criado o templo. E, quando as pedras libertaram a própria essência se volatilizando em aromas, ela teceu com palavras a conjuração que veio do sonho: Aqui, neste círculo de pedra, sobre a terra e sob o céu, na presença do fogo e da água, estamos nós; não serei tua mulher e nem serás meu homem. Como homem e mulher livres nos encontramos para a união primeva de masculino e feminino de onde brota a comunhão e a inteireza. Que assim seja pra mim, que assim seja pra ti. Amém.

            Em silêncio, levantaram-se e ele a conduziu para o leito/altar da consumação. Ela, sob o manto do silêncio que a cobriu de repente, era apenas tato, olhar, olfato e paladar. Somente alguns gemidos, umas poucas palavras e pedidos, obscenos, escapavam da sua boca. Ele, pelo contrário, de olhos fechados e em transe murmurava para ela uma oração de impropérios e oferendas indecentes. Juntos despetalaram rosas sobre o leito/altar. As bocas se uniram, entre elas uma pétala branca. Num beijo desesperado, lábios, línguas e dentes sacrificaram a pétala e ela sentiu-se molhar entre as pernas. A água que anuncia a sede lhe umedecia e ela se abriu para ele.

            Depois de tudo, depois de visitarem juntos o paraíso, ela lhe disse que não se encontrariam mais daquela forma. Era outra das suas certezas. Ele apenas sussurrou, não se pode ler a história antes dela ser escrita... Ela repetiu essa fala e se calou. Aquelas palavras ficaram ecoando dentro do seu silêncio.

            Ainda envolvida na névoa silenciosa, se despediram. Ela recolheu-se, fechou-se em casa. Precisava de um tempo de solitude. Dois dias depois, ainda sentia brotar entre as pernas a água que fala da sede cada vez que se lembrava do encontro. Como as pedras de incenso no fogo as certezas se volatilizaram, os muros da fortaleza começaram a ruir e o bicho fêmea pôs a cabeça para fora da jaula aberta. Acabaram-se os tempos de exclusão e, novamente, o desejo e o prazer tinham lugar na sua vida. Ela havia pago o seu tributo e, afinal, agonia e calma andavam juntas. Agora era também aranha e tecelã, não apenas mosca, na teia do destino. Abriu a porta de casa e saiu cantando pelo jardim:

‘A-pa-re-ceu- a - Mar-ga-ri-da, olê, olê, olá!

A-pa-re-ceu- a -Mar-ga-ri-da, olêêê, seus cavaleiros!



 Escrito por Fátima Guimarães às 06h19
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