Quarto Com Baú
  

Uma criatura desajustada, é assim que tenho me sentido. Sou a voz que está em extinção, a que vai morrer. Minha sensibilidade está me deixando descontrolada. Minha alma vive saindo pela boca e pelos olhos sempre inchados de tanto chorar. A dor do mundo veio morar no meu peito e me apertar a garganta. Sou esquisita. Tudo me mostra isso. Todas as floriculturas onde procuro lírios com pólen insistem em me dizer que o pólen só serve para fazer sujeira e precisa ser retirado. E eu prefiro lírios inteiros, com toda a ‘dita sujeira’ do pólen. Todas as tvs insistem em mostrar o perigo desse mundo e morro de medo da tv. Todas as câmeras de segurança que exibem a reação do assaltante que, durante o assalto, escondeu a arma quando viu sair do elevador uma criança, me mostram, só a mim, que nem tudo está perdido. As pessoas que insistem que devo usar batom, me cansam. As que insistem que meus cabelos brancos devem ser pintados com urgência, me cansam também. Amar e ser amada pelo homem que é meu marido há 20 anos não faz sentido. Resistir a desejos e apelos que tiram o sono porque algo maior deve ser preservado é insanidade. Ser feliz e achar que a vida vale a pena, mesmo quando estou no fundo do poço é incoerência. Viver apaixonadamente é exagero. Rir até fazer xixi nas calças é descontrole. Ter que parar o carro até que as lágrimas diminuam porque vi, no meio fio, o corpinho atropelado e morto de um filhote de cachorro é excesso. Sentir que não há a menor diferença entre mim e o menino que dorme encolhido num canto da marquise e o cachorro que atravessa a rua é absurdo. Amar, amar e amar até o coração doer é sentimentalismo. Ensinar aos filhos que o bem deve ser cultivado e cuidado por nós é ingenuidade e pieguisse. Querer viver sem anestésicos – nem para dor de cabeça – é radicalismo. Sou radical, piegas, ingênua, sentimental, absurda, excessiva, descontrolada, incoerente, medrosa, insana, sem sentido, exagerada, crédula, esquisita. Sinto a solidão do último ser de uma espécie em extinção. Tenho medo desse medo todo que se vende por aí. Mas, meu maior medo é ficar insensível, então me prefiro assim, desajustada...



 Escrito por Fátima Guimarães às 22h10
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A cada ano que finda escrevo uma reflexão, enquanto não apronto a de 2004, posto a de 2003

 

 

Dezembro chega e com ele me vem a vontade de compartilhar reflexões.

 

Mais um ano se passou e eu fico me perguntando o que passa e o que fica de cada experiência vivida, de cada encontro humano. Numa existência tão frágil como a humana, o que de fato é duradouro? O que nos toca e traz a presença do eterno, na nossa efêmera passagem pela terra?

 

Talvez essas reflexões tenham relação com a partida de meu avô. Esse ano ele se foi, partiu para as terras de D. Morte. Caiu, fraturou um osso da perna, fez cirurgia para colocar platina, saiu ótimo da cirurgia, viveu mais quatro dias e morreu. No nosso reencontro, no dia seguinte à cirurgia, no meio da nossa conversa, ele me surpreendeu com uma pergunta que eu não soube responder: “Minha fia, você sabe se minha roseirinha floriu? Quando eu saí, ela tava cheia de botões.” Coisas de meu avô, homem da terra, gente que ainda se interessa em saber se uma roseira floriu. Coisas de D. Vida, com seu jeito todo próprio de nos ensinar.

 

Na hora em que o caixão foi colocado na sepultura, caiu uma chuva repentina e, dentro de mim, brotou um desejo: “Germine em paz...”.

 

Comecei a pensar o que tinha sido plantado na minha vida, a partir do meu encontro com meu avô. Lembrei-me dele, sentado na sua cadeira de balanço, assistindo a rua e as pessoas que passavam na frente de sua casa. Costumava jogar fubá de milho num canto do quintal e ficar assistindo os passarinhos virem comer. Sempre tinha um poeminha prá exibir a boa memória, e o que mais gostava de recitar era “Oh! que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais...”, e seguia dizendo os versos, até concluir, sorrindo: “O mundo é um sonho dourado e a vida, um hino de amor!”. Ele andava com dificuldade, os seus pés inchavam, tinha um lado “esquecido” (como dizia) e poucos dentes. E gostava de contar ‘causos’ e falava poemas! Todas essas pequenas coisas ficaram em mim. Elas me trazem um sentimento de gratidão por ter convivido e aprendido com meu avô. Aprendi sobre paciência, sobre amorosidade, sobre sorrisos, sobre poesia, sobre passarinhos, sobre roseiras e botões e rosas, sobre plantar e florescer, sobre sapiência...

 

No dia seguinte ao funeral, enquanto eu caminhava pela rua, senti o chão sob meus pés e me veio, junto com uma sensação de segurança e proteção, um pensamento: ‘o chão sobre o qual eu caminho é a mesma terra onde meu avô está ‘plantado’. Eu também sou terra onde ele está plantado’. O que vivemos juntos continua em mim. Floresce em mim. Sou terra e sou roseira. Agora posso responder à pergunta que ele me fez. ‘Sim, meu avô, sua roseira floriu, e novos botões continuam a vir. Na terra onde ela está plantada, a finitude da vida é tocada pelo infinito que foi o nosso encontro’

 

Descobri que, de cada encontro humano, algo fica ‘plantado’ em nós, e algo ‘plantamos’ no outro. Algo que pode florescer. Muitas vezes, algo infinito e eterno...

 

...Que possamos estar atentos à sutileza e à grandiosidade desse plantar...

 Escrito por Fátima Guimarães às 21h42
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Como tenho andado sem tempo pra sentar e por no papel os textos que se atulham dentro de mim, estou recorrendo a textos antigos, pois blogar já se tornou um hábito, pra não dizer um vício...

Lembro-me de quando era criança, na época do natal, enquanto minha mãe ia desencaixotando árvore, bolas e enfeites, minha irmã e eu ficávamos mirando a superfície convexa das bolas que enfeitariam a árvore e brincando com a nossa imagem ali refletida. Guardo nos olhos e nas mãos a nítida sensação daquele contato com um vidro muito fino e frágil, de um colorido lindo e brilhante. Essas bolas passavam o ano todo guardadas em caixas de papelão, dentro de um armário, só no natal eram retiradas. A passagem da caixa para a árvore, pelas nossas mãos, era emocionante. Precisávamos de sensibilidade e firmeza porque a inteireza das bolas dependia do nosso cuidado ao segurá-las e carregá-las até à árvore, onde deixariam de ser meras bolas de vidro para se transformarem em frutos mágicos! Sim, porque com elas a árvore não era apenas uma simples árvore de plástico, mas uma árvore encantada e mágica. Uma árvore de natal!

              Cresci e tinha me esquecido destas sensações. Mas, elas vieram novamente ao meu encontro quando, logo após o parto, acolhi meus filhos nos braços. Emocionante e comovente! Ali eu soube que estava nas minhas mãos algo muito importante para o encantamento do mundo, algo que eu precisava lidar com sensibilidade, firmeza, disponibilidade, encantamento e amor. Percebi então que no natal comemoramos o nascimento de uma criança porque toda criança é um fruto mágico capaz de transformar e encantar, a depender de como a conduzimos do nosso corpo para o mundo. Pus-me a pensar sobre como o mundo está recebendo e tratando as crianças; que cuidado e que delicadeza estamos tendo? E como está sendo o natal? Atualmente a sua magia vem sendo trocada pelo fascínio do consumo. A solidariedade e a comunhão, trocadas pelo egoísmo e a competição. O espírito natalino parece estar fora, e não dentro de nós. As bolas de natal são feitas de material inquebrável e já não precisamos mais ter cuidado. Só que as crianças nem são de louça, nem são inquebráveis, e precisam de nós. E, afinal, o que será deste mundo se elas forem despedaçadas ou por demais endurecidas pela nossa falta de sensibilidade, firmeza, disponibilidade, encantamento e amor? Imagino que ele não passará de uma árvore de plástico descolorido... Quem sabe? A resposta está em nossas mãos.

 



 Escrito por Fátima Guimarães às 05h16
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