Quarto Com Baú
  

 Sobre gatos, quases e loucura revelada.

Como falei estou criando dois gatos: Kiko e Madalena. Ele tem 6 meses(quase completos) e ela, a minúscula, tem dois meses (também quase completos). Dormem os dois na minha cama. Na primeira noite que dormiram lá, acordaram de madrugada e começaram a brincar de picula entre mim e Luiz que acordou e me olhou como se perguntasse: em que planeta estou? Respondi a esse olhar com outro, derretido: olhe como são fofos! Ele quase se zangou, então tomei uma providência: expulsei os gatos ali do meio, nos abraçamos e dormimos até (quase) perder a hora.

É, Luiz se achava uma pessoa bem normal - e talvez até fosse - mas, aí fez a loucura de se casar comigo. Então...



 Escrito por Fátima Guimarães às 20h34
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(O que vou esrever aqui tentei escrever junto com o texto que segue abaixo, mas o computador avisava que o 'limite de caracteres tinha sido ultrapassado'. Tive que respeitar o limite, então...)

Parece que estou na fase de abrir o baú das memórias e como baú me lembra a casa de meus avós, o post de hoje fala da minha avó, que eu chamava de "Vozinha". Esse texto nasceu como exercício de criação num Laboratório de Redação Criativa que fiz na Estação das Letras, no Rio de Janeiro, em janeiro desse ano, com o professor Cesar Garcia Lima (assim mesmo sem acento), meu amigo querido e um dos três pais desse blog. (Acho que ele nem sabe que fez parte da gestação desse 'filho', mas ele deve imaginar. Os outros dois pais já sabem, depois conto essa história)



 Escrito por Fátima Guimarães às 21h24
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Vou falar de minha avó Maria. Vozinha teve uma vida muito sofrida. Quando era pequena, fugia da raiva de Tia Virgínia, sua irmã mais velha. Ela vivia dizendo: “Vigina não vale o chão que pisa”. Eu só entendi porque ela insistia nisso um dia em que pintei seu cabelo. Achei  uma cicatriz na cabeça.

- Ô Vozinha, essa cicatriz foi de quê?

- Ah. Isso num foi a ponta da faca que Vigina me jogou quando eu era pequena? Cêis num imagina quem é Vigina...

 

Quando ficou mocinha, fugia de Lampião, pelo meio do mato. Contou que uma noite dormiu em cima de uma árvore porque ouviu os latidos dos cachorros que acompanhavam o bando. Todo canto que ela pensou em ir era muito longe. Não teve dúvida: subiu na árvore e só desceu de madrugada quando Lampião e seus capangas já iam longe. Toda vez que ela contava essa história, explicava por que tinha medo: “Lampião dizia que se me encontrasse sozinha, longe de meu pai, que meu pai ele respeitava, ele me levava mais ele.”

 

Depois fugia da cama de meu avô. E dizia prá a gente: “Ser mulher é um sufrimento! A vida é muito ruim prá uma mulher. Ficar grávida é horríve! Eu num gostava...Depois que nasce os bichinho a gente pega a gostar. Mas eu prifiro os minino hôme. Sofre menos...”

 

Só que apesar de toda essa história de sofrimento e da sua teoria de que “mulher nasceu prá sofrer”, ela conservava uma gargalhada maravilhosa, sonora, GOSTOSA. Parece que fazia cócegas em quem estava junto. Era impossível não rir também.

 

Das férias que passei na casa dela, tenho muitas lembranças. Uma delas é a imagem de minha avó acocorada diante de uma bacia de pratos  prá lavar. Ela cantava enquanto trabalhava. E tinha um detalhe, o barulhinho da aliança dela passando ou batendo nos pratos, prá mim fazia parte da cena. Sempre que ela me chamava prá ajudar, eu catava qualquer anel que pudesse fazer um barulho parecido ao da aliança, enfiava no dedo e me acocorava junto da bacia. E a gente ria, cantava e trabalhava.

 

Às vezes eu tinha medo dela. Quando assistia ela matando galinha, tinha cer-teza de que era uma bruxa! Ela entrava no puleiro e a gente ouvia o cococó apavorado e asa batendo prá todo lado. Um pouquinho depois, saía trazendo na mão uma galinha que se debatia e gritava. Vozinha se ajoelhava no chão de cimento e prendia a bicha entre os joelhos, segurava a cabeça prá baixo esticando o pescoço. Ali usava o polegar e as costas da faca prá puxar e arrancar umas penas. No lugar depenado, ela dava umas batidas com o lado da faca onde eu lia “Mundial”. Eu não resistia e perguntava:

- Pra quê bater assim, Vó ?

E ela respondia:

- Prá chamar o sangue pra’qui.

E isso, a galinha ainda tentando se soltar. Aí chegava a hora do corte. Vozinha passava a lâmina da faca no lugar depenado e batido e eu via o sangue grosso e vermelho se derramar na tigela que estava ali justamente pra isso. A galinha, com a dor do corte, se debatia ainda mais e com mais força. Mas, a tigela ia enchendo e a galinha ia sossegando. No fim, a cara da galinha estava chocante: os olhos fechados, o bico entreaberto e a cor amarelo-morta era a sua cor. Eu, hipnotizada. Quase em transe. Tinha a impressão de que estava da mesma cor da galinha. Ali, de cócoras, sabia que não ia conseguir me levantar sem cair. Parecia que meu sangue também tinha se derramado. Só que fora da tigela. E eu não sabia onde ele tinha ido parar. Mas, disfarçava. Se descobrissem que eu quase tinha morrido junto com a galinha, não iam me deixar assistir da próxima vez. E eu não podia perder aquele espetáculo!

 

Acho que por causa disso, muitas vezes quando eu ouvia, ou lia, a história de João e Maria, eu duvidava que eles iam conseguir escapar da bruxa. Ficava aliviada quando, no fim da história, eles tinham um destino diferente do das galinhas do puleiro de minha Vó.

 

Outras vezes eu achava que ela era fada. Na frente da casa, ela mantinha um jardim com umas florezinhas brancas e miúdas. As pessoas batiam palma no portão e perguntavam:

- Dona Maria, tem surriso?

Vozinha aparecia na porta da casa, enxugando as mãos no avental e sorrindo respondia:

- Tem. Peraí...

E entrava prá apanhar a faca, a mesma “Mundial” de matar galinha. Voltava e cortava uns galhos das tais florezinhas. Entregava as flores. A pessoa recebia e dava uma moeda para minha Vó. Eu, impressionada e curiosa, sem entender direito a cena, perguntava:

- Ô Vó, como é o nome dessa flor?

- Surriso de Maria. Ela respondia.

 

Ah... por muitos anos eu acreditei que a “Maria”, do ‘Sorriso de Maria’, era minha avó. Mas, ‘uma irreverente’, que mora aqui dentro de mim, me saiu com essa: Ôxe! Não tá vendo que o sorriso de Dona Maria era uma gargalhada muito mais poderosa que o sorrisinho amarelo dessas florezinhas brancas?!



 Escrito por Fátima Guimarães às 21h10
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