Quarto Com Baú
  

Meu nariz está entupido, fiquei um tempo com essa sensação e me imaginei sem nariz, o mundo sem cheiros seria terrível para mim. Fui, então, buscar minhas primeiras ‘imagens olfativas’ e vieram memórias de muito longe.

 

Eu me vi na segunda casa da minha infância (as casas são as marcas da minha infância, lá eu não sabia contar o tempo em dias, meses e anos, contei em casas...), no quintal o vento e o sol tentam secar os lençóis úmidos do xixi da noite. O cheiro do xixi nos lençóis, se mistura ao cheiro do porão onde entrávamos, com uma vela na mão, qual arqueólogos descobrindo antiguidades em meio a escorpiões, baratas e outros bichos que só víamos a sombra que fugia apressada. Pelas frestas das tábuas do porão víamos, sobre nós, a sala e o quarto de meus pais. A latinha de ‘Corega’, na cabeceira da cama. O cheiro da ‘Corega’ trouxe a cena de meu pai ajeitando a dentadura. Isso ele fazia na pia que ficava fora de casa, junto com o sanitário, que era separado do chuveiro. O chão do chuveiro era vermelho e lá encontrávamos montinhos de cocô de minhoca. O cocô de minhoca trouxe o cheiro da terra molhada de chuva e da ninhada de gatos que Zoiúda paria no buraco embaixo do tanque de lavar roupa. Deixem os gatinhos em paz, gritava minha mãe. O cheiro forte do líquido que ela usava para fazer permanente nos cabelos me invadiu o nariz. Veio outro, o cheiro do Vick Vaporub que ela me espalhava no peito e nas costas durante as crises de asma. O cheiro de Emulsão Scott e a imagem do homem arrastando o peixe enorme sentou-se na mesa ao lado do cheiro do Biotônico Fontoura que meu pai tomava num cálice minúsculo. Embaixo da mesa, escondidos, os chicletes ping-pong esperavam por nós. Para disfarçar o ‘sem doce’ do chiclete já mastigado guardávamos e cheirávamos o papel da embalagem. Esse cheiro fazia o chiclete ficar com gosto de novíssimo na mesma hora. O cheiro doce do bolo e dos biscoitos assando em véspera de aniversário. O cheiro das velas assopradas depois do ‘parabéns a você’ é vizinho-irmão do cheiro da pólvora e do brilho do fogo que se acendia na ponta do fósforo. E, na ponta dos meus dedos, o cheiro da minha xoxota de menina. O cheiro das brincadeiras escondidas porque ‘Papai do Céu não gosta de menininha nua’. Ah, o cheiro de fruta verde...

 

(Com licença, Papai do Céu, feche os olhos e o Nariz, viu? Só deixe abertos os ouvidos e o coração para que minha prece de agradecimento lhe alcance.

Obrigada, Papai do Céu, por eu não acreditar mais que você se zanga com minhas brincadeiras com o corpo que me deu e eu descobri e me apropriei. E, obrigada também, pelo meu nariz que desentupiu !)



 Escrito por Fátima Guimarães às 15h37
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Sempre me pergunto sobre minha imaginação, desse vício nasceu isso:

Minha imaginação é dom e danação.

Para completar, sou crédula.

Tudo que ela me conta,

acredito.

E ela apronta

comigo.

Talvez venha daí

a sensação de estar pendurada

numa escada

giratória.

Acho que há uma manivela

e quem gira é ela,

minha imaginação.

Minha?!

Confesso que,

a essa altura,

não sei nem

quem é de quem...



 Escrito por Fátima Guimarães às 13h13
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Mais um trechinho de carta para um amigo...

meu amigo muuuito querido

 

Essas revoluções que acontecem dentro de mim me põem mais pra dentro e mais conectada, só que me despedaçam muito. Tenho descoberto que sou mais do que o script que acreditava me guiar, mais 'sombria' quero dizer. Flagro-me numa angústia do que fazer, mas descobri que o 'o que fazer' virá quando eu souber mais do que ‘sou’. O que sou sem fazer esforço, sem intenção, sem script, sem um modelo de certo ou errado, sem expectativas. Dá um medo de olhar pra dentro sem controlar e sem me deixar ser controlada, olhar e conhecer. Dá também muita curiosidade.

 

Como estou entrando em algumas possibilidades de síntese tenho visto que a minha trajetória tem uma linha que vai se/me mostrando, acho que, de fato, nunca me perdi de mim, mesmo quando me sinto perdida. A escolha da profissão, o casamento, o lugar na família, eu comigo mesma, tudo isso me traduz e me revela pra mim. Só que muitas vezes fico invejando um lugar que não é meu e sinto como se todos fossem mais habilitados do que eu para viver essa vida e olhar para isso me conecta com um desamparo profundo, como se eu não pudesse vir em meu socorro. Estou descobrindo que nunca me abandonei, sempre me pus à prova, mas nunca me abandonei.

 



 Escrito por Fátima Guimarães às 15h19
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